Artigos com a tag ‘Questionamentos’

A noite em Undercity é praticamente um grande jogo. A cada noite uma garota como eu pode se deparar com um jogo diferente. Pode ser um jogo de polícia e ladrão, de gato e rato, pique-esconde… mas o mais comum é o maravilhoso jogo do interrogatório unilateral. E assim foi a noite passada:

- Mas me diga… O que você faz? Qual sua formação? Qual seu hobby? Quero saber tudo a seu respeito… – e até poderia ser verdade, porém, a questão não é se é verdade ou não. A questão é: “Por que existem tantas questões em minha cabecinha quando se trata de um encontro?!”

Tendo em vista que consegui enfiar todas estas questões no espaço de cinco minutos desde que chegamos naquele restaurante em Brill, achei que fazia sentido prestar um pouco mais de atenção àquilo e, talvez, deixar meu acompanhante falar deliberadamente acerca da própria vida sem soterrá-lo com mais perguntas.

A noitada me levou a elaborar ao seguinte:

Será que nós, mulheres, nos acostumamos a perguntar demais?

Mais tarde, conversando com uma amiga, percebi que dificilmente conseguiria que outra mulher compreendesse o ponto de vista que, com tanto custo, eu tinha chegado a construir.

- Mas é claro que você tem de querer saber tudo a respeito do sujeito! – Afirmara ela – Vai saber de que buraco ele saiu? De que raça era?

- Undead… – Dissera eu um tanto envergonhada.

Me olhara de cima a baixo com um breve ar de reprovação – Não posso dizer que estou decepcionada… É menos do que você merece, amiga, mas o rigor mortis pode ser bem tentador numa noite fria aqui em Brill. – E mudou de assunto – Mas o que você veio fazer nesta parte da cidade?

Pois bem… esta era outra questão e ela fora direto ao ponto. Não saio com Undeads em Undercity, o que limita muito minhas chances de encontrar qualquer um, mas encontrar Death Knights não é tarefa fácil para uma garota bem sucedida. Parece que ser escritora espanta DKs interessantes… vai entender!

No segundo encontro, após ficar mais de uma hora tentando não fazer perguntas e ouvir tudo o que meu interlocutor tinha a dizer, só descobri que o indivíduo treinava Warriors – o que não é nada mal, uma vez que faria bem para o que restava dos músculos em seu corpo descarnado (não me deixe ser muito descritiva aqui) – e que seu problema fonoaudiológico se devia a ausência de sua mandíbula.

Sim… ele não tinha mandíbula. Não me julgue! Ninguém é perfeito, afinal. E, dizem, Undeads sem mandíbula tendem a ser ótimos amantes por motivos que não convém relatar neste momento.

Mas então… Estava aí uma pergunta que eu queria ter feito no primeiro encontro e que acabei deixando para esta segunda vez. Por mais que o fato de a língua pendente o tempo todo não me incomodar, a baba sobre a mesa e a bagunça na hora de beber o vinho não ajudavam em nada.

Tendo passado a noite toda me segurando, acabei por perguntar: “Você não quer um guardanapo para evitar ensopar a comida que ainda não comeu com sua saliva?” – Por que diabos os homens não conseguem admitir seus próprios defeitos? (E ainda bem que esta pergunta eu não fiz!)

A noite acabou ali mesmo. Ao que parecia eu era capaz de lidar com o pequeno defeito dele mas ele não era capaz de lidar com o fato de eu notar que ele tinha um.

Ao menos foi suficientemente educado para levar-me até em casa, sem falar uma palavra – o que provavelmente ia lembrá-lo que não tinha lábio inferior ou queixo.

Uma vez que um beijo estava fora de cogitação e que já estava tarde, fui para a cama sem satisfazer as curiosidades implícitas aos meus questionamentos não feitos e, para piorar, sem satisfazer as minhas outras necessidades que envolviam a rigidez tão notória em corpos cadavéricos.

Coloquei-me, portanto, a escrever e a intuir, presumir e pressupor os motivos pelos quais no segundo encontro o meu companheiro resolveu ficar tão profundamente magoado. E imaginei se não estava aí o problema.

Quando fazemos todas aquelas perguntas que fazemos em um primeiro encontro – ou mesmo depois de estarmos em um relacionamento sério – será que estamos realmente esperando ouvir uma resposta? Digo… existe alguma resposta que será melhor que a nossa imaginação ou tudo aquilo que cismamos em ler nas entrelinhas?

Se é verdade que as mulheres têm sentimentos que o homem sequer sabe que poderiam existir, seria demais propor que nós mulheres imaginamos coisas que sequer existam?

Será possível que toda história que eu bolei com tanto esmero em minha cabeça não seja verdade? Que ele era alvo de gozações no colégio por conta de sua mandíbula? Que seus parentes mais novos caçoavam do jeito que ele comia à mesa? Que ele se sentia complexado por não poder ter um cavanhaque?

No frigir dos ovos, que necessidade de controle toda é esta que faz a mim e às minhas amigas necessitarmos criar uma história toda elaborada só para manter a ilusão de que a informação existe? Seria a verdade suficiente caso proferida?

A questão, enfim, não é tanto se nos acostumamos a perguntar demais. A questão é se estamos tão machucadas pelas nossas vivências passadas que acabamos por fazer perguntas já supondo que a resposta que imaginamos seja a verdadeira. E ai do interlocutor se a resposta não corroborar com a nossa imaginação. Fatalmente isso significaria que nossa vítima estaria mentindo…

Resolvi então fazer uma surpresa à minha “vítima” da outra noite. Uma vez que nos conhecemos na hora do almoço, próximo ao portal para Silvermoon nas Ruínas de Lordaeron, resolvi fazer-lhe uma surpresa e estar lá quando ele chegasse.

Já estava me sentindo-me mal pelo interrogatório, pelas entrelinhas, pela indelicadeza, pela falta de sensibilidade, pela necessidade de controle, pelo excesso de imaginação, por toda minha insegurança feminina, pela falta de confiança, por supor previamente na culpabilidade de alguém que mal conhecia e… quando ele finalmente apareceu, chegou com uma aliança no dedo e com a esposa a tira-colo.

A queda é sempre grande. Apesar de tudo, afinal, nós queremos acreditar, não é? Mas sabe?… Apesar das constantes decepções acho que vale refletir sobre essa nossa coisa com perguntas e questionamentos.

A cautela é uma ferramenta que existe para nos ajudar e não para se colocar entre nós e a felicidade… e este, creio, é o xis da questão.

Não se preocupe tanto. Em Undercity sempre há um pé doente para um chinelo velho.

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